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13/06 05h49 2018 Você está aqui: Home / Literatura Jussara Pires Imprimir postagem

Atropelado

Você está aqui: Home / Literatura - com Jussara Pires

O que escrever quando não se sabe sobre o quê? Bem, na verdade, assunto é que não falta. Quando menos se espera, uma história brota. Basta ficar atento a alguma coisa inusitada ou não... Para despertar a vontade de teclar e deixar registrado um novo conto. Como por exemplo: Certa vez...

Eu estava indo buscar meu filho no colégio, quando de repente, um jovem rapaz caiu no meio da avenida. E junto com ele, uma bicicleta cheia de sacolas. Um carro por pouco não o pegou. Mas algumas de suas sacolas foram esmagadas e outras arrastadas. O motorista até tentou parar, mas, rapidamente, uma turma furiosa se formou e ele arrastou os pneus e foi embora.

O ciclista ficou meio atordoado. Mas não houve nada grave com ele, além de algumas escoriações. Porém, assim que o levantaram do chão, ele começou a gritar:

― Cadê meu bebê? Cadê meu bebê?

As pessoas, que o cercavam, ficaram perplexas. Nenhum bebê fora visto durante o acidente. Mas, mesmo assim, procuraram por todos os lados. Porém, o suposto bebê, não foi encontrado. Contudo, um dos pedestres disse ter visto tudo:

― Eu vi... Pobrezinho! Foi arrastado pela roda traseira do carro...

O ciclista ficou desolado. Jogou-se no chão aos prantos. Dizendo que, sem o seu bebê, ele preferia morrer. Não demorou para começar um tumulto. Foi uma confusão danada. Um corre-corre dos diabos. Não sei de onde surgiram tantos pneus e cadeiras quebradas, que formaram uma barricada e pararam o trânsito.

Buzinas nervosas, motoristas irritados e protestantes irados. Homens, mulheres e crianças agitavam panelas, vassouras, pedaços de panos... E atearam fogo na barricada. Enquanto isso, o ciclista continuava lá; deitado no meio da rua, chorando e delirando:

― Meu bebê... Meu bebê...

Sirenes soaram. Três carros da polícia chegaram para apaziguar os ânimos. Mas não demorou muito e já havia: dois detidos no camburão, três algemados no chão, mulheres e crianças sufocadas com bombas de fumaça.

O fogo da barricada foi contido e a pista liberada. Mas os motoristas, enfurecidos, passavam dizendo injúrias a quem já não podia dizer mais nada.

Por fim, chegou a ambulância para socorrer o causador de todo aquele balburdio. Não faltaram mãos para ajudá-lo. Todos muito preocupados. Juntaram os restos das sacolas ao seu lado. Era o mínimo que podiam fazer. Já que estava ausente o corpo do atropelado.

Mas, assim que os paramédicos começaram a examiná-lo, ele abriu os olhos e sentou-se na maca, gritando:

― Cadê meu bebê? ― perguntou, ainda tonto.

Passou os olhos ao redor e viu as sacolas salvas do acidente rodoviário. Retirou de uma delas uma garrafa de cachaça pura e destilada. E deu uma golada que levantava até defunto.

― Ah, meu bebê, pensei que tivesse perdido você! ― disse, lambendo os beiços.

Depois, abraçado à dita cuja, com um sorriso no rosto, jogou-se de lado na maca da ambulância, já roncando.


E foi assim que surgiu mais um conto. Mas se ele é verdadeiro... Isso eu não conto!

Jussara Pires

 

 


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