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08/05 12h40 2018 Você está aqui: Home / Entendendo Saúde Dr. Luiz Duplat Imprimir postagem

Começo o comentário de hoje com uma história vivida e relatada por um colega médico, plantonista de emergência. Há poucos meses, quando ele estava de plantão numa UPA e foi chamado para atender uma paciente desmaiada, acompanhada do marido, que estava transtornado e furioso, não permitindo uma conversa objetiva. Estava irado. Aos poucos, meu colega, percebeu que ele fazia ameaças: "Se eu cruzo com esse médico na rua, eu dava um

tiro".

O fato: a senhora desmaiada fazia tratamento psiquiátrico e estava afastada do trabalho há cerca de dois anos. Vinha melhorando, com uso de medicação e psicoterapia, tudo pelo SUS– Sistema Único de Saúde. Naquele dia, tinha passado pela perícia no INSS. Resultado: o médico perito - era ele o alvo das ameaças - notando a melhora, negou a continuidade da licença e suspendeu o benefício auxilio doença. A paciente chegou em casa já em crise de pânico. Chorando, mal conseguia falar, confusa e agitada, "virou os olhos" e desmaiou.

O leitor apressado pode achar que eu estou prestes a ofender a paciente, atribuindo a ela alguma falha de caráter. Mas, não, de modo algum. Aquela paciente estava em intenso e franco sofrimento. Sua reação de desmaiar é típica dos humanos, e muito comum nestas ocasiões. Vejamos: uma pessoa de mais de cinquenta anos, com baixo nível de escolaridade e com problemas psiquiátricos; pode esperar uma experiência de trabalho saudável e com bom salário? Na dura realidade brasileira, as condições de trabalho, de salário e de crescimento pessoal disponíveis para ela são mínimas. Ela estava se sentindo como uma condenada, ao ter que voltar a trabalhar.

No caso dessa paciente, ela não estava fingindo, nem sendo preguiçosa. Ela apenas reagiu de forma racional. Trabalhar dá trabalho. Se o ganho total de voltar a trabalhar é muito inferior ao de continuar no INSS, a decisão mais lógica é continuar doente. Há algo de perverso nesse mecanismo. Mas não é o médico perito o perverso, como queria o marido. Muito menos a paciente.

Um outro exemplo, mas que ilustra o mesmo ponto. Certa vez, estava realizando atendimento a população na Secretaria de Saúde, e uma delas levantou uma questão que me pareceu inusitada, a princípio: "Por que não havia papel higiênico no sanitário da UPA?". Concluído os atendimentos, entrei em contato com a coordenação da UPA e perguntei o porque da falta de papel higiênico. Obtive como resposta que, na verdade, o papel higiênico é colocado e, em seguida, roubados. Lembrei de imediato dos óculos de bronze da estátua do Drummond, no
Rio de Janeiro, que já foram roubados várias vezes.

Enfim, voltando ao tema da saúde. A afirmação é: saúde de graça é um mito. Por que? A resposta curta: Porque saúde custa caro. Não estou falando de consultas, exames, remédios e procedimentos, que podem ser custeados pelo Estado. Mas do custo que só você pode pagar. O preço do autocuidado, do cuidar das pessoas, do cuidar dos bens comuns e do meio ambiente. Saúde não é um direito que possa ser exigido. Saúde é um bem, e deve ser conquistado.

Vejamos. Ter saúde está diretamente relacionado a comer bem, praticar atividade física, produzir para a sociedade. Ter saúde também é necessário respirar ar puro e beber água limpa. Assim como, ter boas relações familiares e sociais, confiar em alguém, saber conversar e dar risadas. Ter sempre pensamento positivo. Ninguém fica saudável sentado, esperando que saúde lhe seja entregue porque é seu direito. Ter saúde dá trabalho.

A paciente, do ínicio deste comentário, que surta ao ter seu benefício do INSS suspenso, retrata o meu pensamento. É preciso entender o contexto em que ela vive. Não é ela quem não quer trabalhar. Nosso país, atualmente encontra-se com poucas oportunidades, numa crise econômica, com índice de desemprego elevado, com educação de péssima qualidade, é um país que estimula a doença, não a saúde. É muito mais negócio ser doente, e ser cuidado, do que ser saudável e cuidar. Pode triplicar o orçamento da saúde, não vai adiantar. Não é de mais médicos, nem de mais hospitais, que essa paciente precisa. Mas das condições para ter uma vida digna, que lhe pareça mais atraente que a doença.

Da mesma forma, o caso do papel higiênico. Quando algo é oferecido de graça, sempre terá pessoas prontas para receberem, é um verdadeiro saco sem fundos. Seja papel higiênico, óculos de bronze, ou serviços de saúde; se basta estender a mão e pegar, porque não? O brasileiro tem uma forte noção de direito, sem uma correspondente noção de dever. Pode triplicar o orçamento da saúde, enquanto as pessoas continuarem achando que elas têm o direito de ter saúde, sem o dever de contribuir para isso, não vai adiantar. Saúde pública funciona bem em alguns países.

São países em que as pessoas têm uma vivência de comunidade e de responsabilidade. Têm saneamento básico, boas escolas, trabalhos decentes com bons salários. O Brasil precisaria investir menos em saúde se investisse em educação, civismo e autonomia. O Brasil precisa de um povo ativo, produtivo e responsável, e não de um povo doente elegendo políticos para construir hospitais, UPAS ou para adquirir ambulâncias e equipamentos médicos de alta tecnologia, para realizar exames, cada dia mais sofisticados. Pode por isso na cabeça: saúde custa caro. E não para o Estado. Para você.


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