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16/02 22h07 2018 Você está aqui: Home / Politica Domingos Silva Imprimir postagem

Ouvimos dizer por aí que brasileiro é um povo pacífico. O Brasil é um país que não tem guerras, de um povo ordeiro e trabalhador. Adjetivos muito convenientes quando nos querem manter subservientes. Uma boa maneira de fazer isso é apagar nossa memória. Esta semana encontrei um texto interessante num livro sobre guerras e batalhas.

 

O livro de William Weir, Histórias de Guerras e Batalhas – verdades reveladas, 2013, Editora M. Books do Brasil, tenta desfazer mitos. Mas o que me chamou atenção foi o mito 17 na página 129, cujo título é: “As guerras latino-americanas nunca foram sérias”. Sob esse título, o autor apresenta um retrato da guerra do Paraguai, entre Brasil, Argentina, Uruguai e, claro, Paraguai, acontecida entre 1865 e 1870. Passo a transcrever o conteúdo do texto na íntegra para que o leitor faça sua própria análise, sem deixar de notar que o autor é americano e pode ter colocado seu ponto de vista de americano. De qualquer forma, serve como informação sobre um acontecimento que marcou profundamente a história do Brasil e sobre a qual os livros didáticos não falam mais, a não ser para enaltecer a figura do Duque de Caxias como herói nacional.

 

“Por alguma razão, durante muitos anos os americanos alimentaram a ideia de que as guerras da América Latina eram revoluções travadas por exércitos compostos de generais e coronéis – guerras que produziam muitas mudanças de governo, mas poucas baixas. Mais tarde, a nossa noção mudou; sabemos que houve e que há muitas questões graves na América latina: massacres, esquadrões da morte, terroristas, etc. Mas guerras sérias contra Estados soberanos? Isso não acontece. Assim pensamos.

 

               Isso demonstra uma das grandes lacunas no sistema educacional americano: os indivíduos mais lidos e instruídos sabem alguma coisa sobre a Guerra dos Cem Anos entre a Inglaterra e a França, a Guerra dos Oito Anos entre a Espanha e os Países Baixos, a Guerra dos Trinta Anos na qual a maior parte da Europa participou de uma guerra civil alemã. Já ouviram falar da Guerra dos Bôeres na África e de várias guerras de conquista da Grã-Bretanha, da França, da Bélgica, da Alemanha e da Espanha na África. Mas a parte sul da América do Norte e toda a América do Sul são uma terra incógnita em termos históricos.

 

               Nenhuma guerra latino-americana é mais desconhecida nos Estados unidos do que a

Guerra da Tríplice Aliança ou Guerra do Paraguai, entre 1865 e 1870. Mas em termos proporcionais, essa guerra do Paraguai contra a Argentina, o Brasil e o Uruguai é uma das mais sangrentas da história, seja da América do Sul, seja do mundo inteiro. O Paraguai começou a guerra. Quando ela terminou, a população do país, de acordo com uma estimativa confiável, caíra de 1.337.000 para 220.000 habitantes. No fim da guerra, o exército paraguaio consistia, em grande parte, de menores de 12 anos. A população masculina adulta do Paraguai foi praticamente aniquilada.

 

               Eis o que aconteceu.

 

               O Paraguai teve uma história colonial bem incomum. O país era habitado por índios guaranis, muito pacíficos. Os missionários jesuítas chegaram no final do século XVI e criaram entre eles uma sociedade semicomunista. Proibiram aventureiros espanhóis e portugueses de entrar no território, porque a maioria dos europeus ia à terra dos guaranis capturar escravos. Os índios levavam uma vida regimentada, mas aparentemente feliz, e prantearam os jesuítas quando, em 1767, depois de reclamações de colonos espanhóis contra os missionários que os impediam de explorar a terra (e o seu povo), o rei da Espanha expulsou os jesuítas de todo o território espanhol.

 

               Os guaranis não criavam problemas para o rei e sua terra pantanosa atraía poucos europeus. Mas no início do século XIX, a revolução, inspirada pela Revolução Francesa, inspirada por sua vez na Guerra de Independência dos Estados Unidos, estava no ar. Em 1811, depois que os habitantes de Buenos Aires declararam a independência da Espanha, o Paraguai foi atrás. Pouco tempo depois, o Dr. José Rodrigues de Francia Y Velasco tornou-se ditador. Francia era um dos únicos paraguaios com doutorado, no caso dele, em teologia. Ele estudara para se tornar sacerdote católico, mas achou que governar um país era uma carreira mais satisfatória. Pertencia a uma classe que os espanhóis chamavam de “caudilhos bárbaros”. O Paraguai teve um quinhão bem grande desses líderes.

 

               Francia tentou manter o Paraguai tão isolado quanto nos tempos dos jesuítas, mas jesuíta ele não era: tomou todas as propriedades da Igreja Católica e nomeou-se líder da Igreja. Ele desestimulava o matrimônio oficial e insistia em oficiar pessoalmente todos os casamentos do país. Todo mundo tinha de tirar o chapéu quando ele passava e quem não usasse chapéu, tinha de levar consigo uma aba ade chapéu para erguer. Ele criou uma polícia secreta para impor os seus decretos e executou muitíssima gente. Provavelmente era louco, mas os paraguaios o aguentaram.

 

               Quando morreu, Francia foi sucedido por um novo caudilho bárbaro, Carlos Antonio López. Este deu prosseguimento a duas políticas de Francia: tornar o Paraguai completamente autossuficiente e não admitir dissidência no seu governo. Francia não teve filhos legítimos, mas Carlos López teve e pretendia criar uma dinastia. Promoveu a brigadeiro-geral o filho Francisco Solano López, de 18 anos, e, nove anos depois, em 1853, o mandou para a Grã-Bretanha, França e Itália como ministro plenipotenciário para comprar armas, navios e suprimentos militares.

 

               Francisco López admirava muito i império de Napoleão III e o seu exército. Também admirava uma moça irlandesa chamada Eliza Lynch (ou Elisa, grafia espanhola que adotou), nascida em Cork, na Irlanda, que se casara aos 15 anos com um oficial francês. Eles logo se divorciaram e Elisa se uniu a um nobre russo. Quando a Guerra da Criméia começou, o russo voltou para casa e a deixou em Paris. Quando López a conheceu, ela era uma moça belíssima ade 18 anos. Ele era um homem de 27 anos gordo e baixote, que sempre usava uma farda carregada de medalhas. A maioria dos parisienses o considerava um tolo, mas Elisa Lynch achou que tinha boas possibilidades. Tornou-se sua amante e ficou com ele quando voltou ao  Paraguai.

 

               Ao chegar, Carlos Antonio López o nomeou ministro da Guerra e, depois, vice-presidene. Quando o pai morreu, Francisco Solano López tornou-se presidente.

               Na época, os Estados do Rio da Prata (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) eram uma região perturbada. Na maior parte da América Latina da época, havia dois partidos políticos: os Blancos (brancos) e os Colorados (vermelhos). Era comum os integrantes desses partidos sentirem mais lealdade ao mesmo partido nos outros países do que ao outro partido no próprio país. O Brasil era o maior Estado e mais poderoso. Também era um império governado na época por Dom Pedro II. Ao lado dos Estados Unidos, na América do Norte, era o maior país escravista do mundo. A Argentina era a segunda potência da América do Sul. Uma república que se livrou tardiamente de Juan Manuel de Rosas, um dos mais bárbaros entre os caudilhos bárbaros. A Argentina e o Brasil eram sérios rivais e ambos estavam de olho no Paraguai. O Uruguai era uma república de gaúchos, uma área quase anárquica fantasiada de país.

 

               O Brasil interviera várias vezes nos assuntos internos do Uruguai. Em 1864, Dom Pedro declarou que cidadãos brasileiros eram roubados por uruguaios, o que provavelmente era verdade, e o governo uruguaio nada fazia a respeito. Na época, o Uruguai era controlado peloo partido colorado. Bartolomeu Mitre, presidente da Argentina, era blanco. Ele não se opunha à invasão do Uruguai pelo Brasil; já Francisco Solano López tinha outra opinião e via a ação do Brasil como uma nação grande importunando outra pequena.

 

               Como o Uruguai, o país de López era pequeno, espremido entre os dois maiores países da América do Sul. Mas ao contrário do Uruguai, o Paraguai não era indefeso. Em termos de América do Sul, tinha uma marinha razoavelmente forte, embora sem saída para o mar, e graças a Francisco Solano López e ao pai, o maior exército da região. Eram pelo menos 70.000 soldados, mas sem fontes confiáveis de suprimentos militares e sem reservas. Também lhe faltava uma cadeia de comando eficiente. Os oficiais subalternos não tinham experiência nem autoridade: todas as ordens tinham de vir de López. Também não havia na América do Sul potência militar que se comparasse aos Estados Unidos, que, em 1865, tinham o maior exército e a maior marinha do mundo.

 

               López reagiu à invasão do Uruguai pelo Brasil tomando um navio brasileiro. O governador da província brasileira de Mato Grosso foi capturado junto com o navio. Então, em março de 1865, López lançou parte do seu exército para o norte, sobre Mato Grosso. Alguns paraguaios chegaram à província brasileiro do Rio Grande do Sul. O Mato Grosso era uma área selvagem que López não cobiçava, e o exército brasileiro não estava lá. O ataque paraguaio ao norte foi uma operação diversionária. O grosso dos soldados brasileiros estava no Uruguai, ao sul do Paraguai. O Paraguai não tinha fronteira com o Uruguai. A melhor maneira de ir do Paraguai ao Uruguai era passar pela Argentina. López pediu permissão à Argentina para os seus soldados atravessarem o território e chegarem ao Uruguai. Ele não sabia que a Argentina aprovara a invasão brasileira. Tavez contasse com a tradicional rivalidade entre Argentina e Brasil, mas o Paraguai também não era um dos países favoritos do Brasil. Durante o governo de Carlos Antonio López, houve várias escaramuças de fronteira entre brasileiros e paraguaios, e Bartolomeu Mitre, presidente da Argentina era blanco, partido que o Brasil repusera no poder depois da invasão. A Argentina não deu a permissão.

 

               López não ligou. Mandou os soldados para a Argentina. Então, Argentina, Brasil e o novo governo blanco do Uruguai assinaram um tratado e declararam guerra ao Paraguai em 1° de maio de 1865, formando a chamada Tríplice Aliança.

 

               Os três aliados começaram um grande recrutamento. O pequeno Uruguai conseguiu 40.000 soldados; a Argentina, estima-se, contribuiu com 100.000, inclusive Bartolomeu Mitre, primeiro general comandante da força aliada. Mas, no final das contas, Mitre não levou um grande efetivo aos aliados. O Barsil convocou a Guarda Nacional, criou uma força de voluntários (como fizeram os Estados Unidos alguns anos antes, na Guerra de Secessão) e libertou os escravos que lutassem na guerra. Uma grande parte do exército brasileiro era de escravos ou negros libertos. Durante a guerra, o efetivo do exército brasileiro foi estimado em 150.000 homens. No entanto, a sua arma mais formidável era a marinha, com 42 navios, alguns deles blindados.

 

               Não demorou muito para a vantagem numérica dos aliados ser de 10 para 1.

 

               A marinha de López deu apoio à invasão da Argentina e bloqueou o porto argentino de Corrientes enquanto os paraguaios ocupavam a cidade de mesmo nome. O Brasil mandou soldados para o Mato Grosso, que não encontraram nenhum paraguaio e decidiram invadir o Paraguai, mas a cavalaria paraguaia os expulsou. Até 1868, quando foram transferidos para a frente do Sul, os paraguaios ocuparam uma parte de Mato Grosso.

               Nessa época, o final da guerra já estava decidido. Em 11 de julho de 1865, na Batalha de Riachuelo, os navios blindados brasileiros e outros arrasaram a marinha paraguaia. As estradas do Rio da Prata eram poucas e péssimas; todas as viagens eram pelo rio. Os soldados da Argentina ficaram isolados, e os navios aliados bloqueram os suprimentos que López poderia receber do mundo exterior. No final de 1865, a Tríplice aliança assumiu a ofensiva.

               Em 12 de setembro de 1866, López pediu a Mitre para negociar os termos de paz. Mitre disse que o Paraguai teria de aceitar todas as condições especificadas no tratado secreto da Tríplice Aliança, uma das quais exigia que a guerra continuasse até que o então governo do Paraguai deixasse de existir – em outras palavras, até a morte de Francisco Solano López.

 

               Os paraguaios continuaram lutando. No final da guerra, muitos não tinham armas de fogo, somente facões e lanças. López escolheu um homem de cada esquadrão para matar os outros soldados que mostrassem sinais de querer se render. Elisa Lynch organizou as paraguaias em uma brigada de cavalaria e comandou as cargas. Se algum homem desertava, ela ou López açoitava a esposa até a morte. López ficou paranoico e executou centenas de suspeitos de derrotismo, inclusive dois irmãos seus e dois cunhados. Para poupar munição, as execuções eram realizadas com lanças.

 

               No lado aliado, depois de tentar várias vezes tomar posições paraguaias sem sucesso, Mitre foi substituído pelo brasileiro Marquês de Caxias. Este contornou os fortes e sitiou a fortaleza paraguaia de Humaitá. Finalmente, quando Humaitá caiu, Caxias se esgueirou pelos pântanos e selvas e atacou o exército de López pela retaguarda. Em 5 de janeiro de 1869, Caxias entrou em Assunção, capital do Paraguai. Francisco Solano López fugiu para as montanhas ao norte da cidade.

 

               Os soldados da Tríplice Aliança começaram a atacar as aldeias paraguaias e matar todo homem que parecesse capaz de portar uma arma. Às vezes, matavam as mulheres e crianças também. Mas os paraguaios continuavam lutando.

 

               Em 1º de março de 1870, a cavalaria brasileira surpreendeu lópez, acompanhado de 200 soldados. Há muitas histórias sobre o fim de Francisco Solano López. Uma delas, popular na Argentina, é de que um cavaleiro brasileiro chamado cabo Chico Diabo (nome improvável, mas talvez fosse escravo) escolheu López por ser o único gordo em um acampamento de famintos e o transpassou com a lança. Um argentino com senso de humor fez um quadrinho:

 

               Cabo Chico Diablo cabo el diablo chico. O cabo Chico Diabo deu fim ao diabinho.

               Elisa Lynch foi deportada para a França, onde acabou morrendo na pobreza.

               O número de baixas argentinas foi estimado em 10.000 homens, assim como o do Uruguai, e o brasileiro em 100.000.

               A guerra teve alguns efeitos positivos: credita-se a ela o início da abolição da escravatura do Brasil e a união da Argentina, dividida por disputas entre chefes guerreiros.

 

               A guerra não levou nenhum benefício ao Paraguai. O país perdeu grandes porções de território para a Argentina e o Brasil. Este último ocupou o país ostensivamente durante seis anos, para preservar a lei e a ordem, mas na verdade para manter a Argentina fora de lá. Mas depois das perdas sofridas na guerra, nem Argentina nem Brasil queriam brigar entre si. E o país despovoado constituía uma boa proteção entre as duas maiores potências sul-americanas. A guerra praticamente destruiu o Paraguai como nação. Ele teve de suportar uma longa série de caudilhos bárbaros, dos quais o último foi Alfredo Stroessner, derrubado em 1989.

 

               Um poeta citado por John Crow compôs um lamento fúnebre do Paraguai:

Llora, llora urutaú em las ramas del yatay; Ya no existe el Paraguai donde nasci como tu Lhora, llora urutaú.

               Chora, chora urutau nos ramos do jataí já não existe o Paraguai onde eu também nasci

               Chora, chora urutau.”

William Weir

Histórias de Guerras e Batalhas: Verdades Reveladas. desmistificando lendas, mitos e segredos que foram passados como verdades através dos tempos. 2013, São Paulo. M. Books do Brasil Editora. 

 

Filósofo Domingos Silva, colunista colaborador do Portal Abrantes


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