28/06 03h54 2018 Você está aqui: Home / Literatura Jussara Pires Imprimir postagem

O SINO

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Eu era menina quando, pela primeira vez, ouvi o toque de um sino na hora de dormir. Era um toque quase imperceptível, como se uma colherinha batesse levemente em uma taça de cristal, duas vezes. Nessa época, eu deveria ter uns onze anos. Lembro-me bem, que todas as noites eu ficava tensa, esperando o toque do tal sino, logo após apagar as luzes. O coração disparava, meus olhos esbugalhavam e eu ficava apavorada ao constatar que ele tocava mais uma vez.

Filha de pais católicos, não fervorosos, mas católicos, fui batizada dentro das normas da igreja católica. Tive aulas de catolicismo e fiz minha primeira comunhão aos oito anos; tenho fotos desse dia, com um rosário de contas brancas nas mãos. Mas, apesar da minha situação religiosa já definida desde cedo, eu vivia em conflito comigo mesma. Não porque eu tivesse dúvidas da existência de Deus, não era isso, muito pelo contrário, o meu dilema era exatamente porque eu acreditava demais.

A existência do inferno e do céu ficou logo definido em minha mente. Ou eu era uma pessoa boa e iria para o céu ou eu era uma pessoa má e iria para o inferno. O diabo me assustava, mas ele não me assustava mais do que o próprio Deus; que ouve e vê tudo o que fazemos ou pensamos e ainda castiga a quem não seguem os seus mandamentos. Ele morde e assopra, perdoa ou pune seus fiéis a depender de sua vontade ou do seu humor do momento.

Uma criança pode sofrer muito com tantas imposições religiosas. E eu queimava no inferno com a possibilidade de ser castigada por Deus, só por ter pensamentos impuros. Já sentia até as chicotadas que iria receber dos demônios ou os castigos angelicais impostos pelo impiedoso. 

Para melhorar, minha mãe não era, por assim dizer, totalmente fiel à religião católica ― como normalmente acontece em nossa região, onde há sincretismo religioso ― e por isso, ela também frequentava um Terreiro, e ia ver uma mulher que jogava búzios, e também ia a uma cigana para ler as mãos; pelo menos uma vez por mês. E me levava junto. E em cada lugar que eu ia, era presenteada com um objeto para minha proteção.

Logo, eu tinha todos os motivos do mundo para temer o maldito sino. Pois, com tantas discrepâncias religiosas, afinal de contas, eram anjos ou demônios que protegiam o meu sono? Sofri por anos por não entender a diferença entre as crenças. Eu vivia no limbo por causa da minha formação católica e passava as noites em claro, com insônia, coberta até o queixo, vasculhando o escuro, tentando descobrir o que poderia provocar aquele som. Eu não me mexia, não piscava de tanto medo. Vivia atormentada. Um suplício sem fim.

Um dia, porém, eu me libertei; cansada de me perguntar se eu iria para o céu ou para o inferno quando morresse ― e já morta, por assim dizer, de tanto medo ―  tirei todos os colares de santos que levava em meu pescoço, tirei o crucifixo que levava no peito e o rosário que eu levava no bolso. Sem falar, que acabei com as hóstias sagradas das missas dos domingos, e com os patuás, os banhos de folhas, com a água benta, o sal grosso que inevitavelmente, uma vez ou outra, usava para me benzer.  Era muita proteção para tão pouca mente. Mas jurei a mim mesma, que não iria mais sofrer por acreditar. Comecei uma vida nova, tirando todo o peso dos meus ombros; virei ateísta. E desde então, e já faz um bom tempo, passei a dormir à noite inteira sem pesadelos. Já não sofro mais com pecados que não cometi. E nunca mais ouvi nenhum som que tirasse meu sono; vivo feliz! 

Até hoje. Pois hoje um sino tocou de novo para mim...

Jussara Pires


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